segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Quando pecadores e prostitutas passam à frente a caminho de Deus | Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura


Jesus terminou a sua viagem para Jerusalém a cidade santa em que entrou aclamado como Messias, filho de David, pelos discípulos que o acompanhava, e pelas multidões; expulsou do templo quantos impediam que fosse uma casa de oração e secou simbolicamente a figueira que não dava frutos. Estas ações causam uma profunda indignação da parte das autoridades religiosas legítimas mas perversas, «sacerdotes e anciãos», que intervêm publicamente perguntando a Jesus com que autoridade realiza esses gestos provocadores. Mas Jesus não responde, antes põe-lhes uma pergunta relativa à missão de João Batista: missão querida por Deus ou missão que João tinha inventado por si?
Este questionamento não recebe, todavia, uma resposta, e então Jesus dirige-lhes três parábolas: a dos dois filhos, a dos vinhateiros assassinos e a dos enviados ao banquete nupcial. De facto, são três parábolas com as quais Ele procura causar um arrependimento naqueles adversários que pouco tempo depois serão os seus acusadores e os seus condenadores. As parábolas são para Jesus precisamente um instrumento para fazer mudar o pensamento e a atitude àqueles a quem são dirigidas. Mas aqui acontecerá exatamente o oposto. Em vez de se interrogarem e converter, sacerdotes e anciãos indignar-se-ão ainda mais e, compreendendo que tais narrativas se dirigem precisamente a eles, endurecem ainda mais o seu coração, acrescendo a sua oposição e o seu ódio para Jesus.
Escutemos então a primeira parábola, em obediência ao ordenamento litúrgico que a prevê para o próximo domingo (Mateus 21, 28-32, 26.º Domingo do Tempo Comum). «Que vos parece?», introdução que é um convite a pensar e a discernir, para que no fim haja uma outra pergunta da parte de Jesus, que requererá uma resposta clara e decisiva. A resposta inicial do primeiro filho interrogado pelo pai para ir trabalhar na vinha é irreverente, uma desobediência consciente. Mas este filho que ousa resistir ao pedido do pai e lhe nega a obediência, de seguida muda de opinião e vai trabalhar na vinha. Assim mostra que se arrependeu; pensando, mudou de opinião e a não vontade transformou-se para ele em obediência possível.


Entra depois em cena o segundo filho. O pai dirige-se a ele do mesmo modo que o anterior, e a resposta que obtém é positiva: «Sim, Senhor!», mas depois não vai. Estamos perante um filho respeitoso do pai, que até o chama “Senhor”. É respeitoso talvez por medo, porque incapaz de dizer um “não” ao seu pai. Ou é respeitoso porque nutrido de formalismo: diz sim ao pai, como é requerido pela lei e pela prática, mas depois não faz a vontade. Talvez pense que o pai não se recorde que ele não colocou em prática o que ele lhe disse… Não conhecemos as motivações da não execução do convite: resta o facto de que a vontade do pai não é cumprida. Este segundo filho contenta-se em fazer uma declaração verbal segundo o desejo do pai e não perceciona a própria incoerência: como um cego não vê, não se lê a si próprio…

É evidente que o que sucede nesta parábola sucedia aos tempos de Jesus, entre os crentes judeus, mas sucede ainda hoje nas comunidades de discípulos, na Igreja. Houve sempre, há e haverá quantos dizem «Senhor!, Senhor!», invocam-no e têm muitas vezes o seu nome na sua boca, mas depois não fazem a a vontade do seu Pai que está nos céus. As palavras de Jesus querem desmascarar estes crentes que confiam no seu frequentar assembleias onde ressoa a palavra do Senhor, que participam nas refeições com o Senhor, comendo e bebendo à sua mesa, mas que na verdade sem serem concretamente discípulos no seguimento de Jesus, na tentativa de conformar a sua vida à sua. Militantes, certo, sem serem discípulos!
Graças a esta parábola somos convidados a discernir no nosso hoje aqueles que de facto, sem o saber, são representados pelo primeiro ou pelo segundo filho: homem religiosos orgulhosos da sua pertença confessional e falam, falam…; dizem sim à vontade de Deus, mas diariamente não a realizam, porque para eles é mais importante aparecer do que ser e fazer. Do outro lado, aqueles que parecem dizer constantemente não a Deus porque não se mostram religiosos, porque não proclamam a sua pertença religiosa, e depois, ao contrário, vivem-na no anonimato, no dia a dia, realizando a vontade do Senhor sem o nomear e por vezes sem o conhecer. Perfeitos anónimos para nós, mas que simplesmente «praticam a justiça, amam a misericórdia e caminham humildemente com Deus». Eis então, pontual, no fim da parábola, a pergunta de Jesus: «Qual dos dois filhos cumpriu a vontade do pai?», a que se segue a esperada resposta dos sacerdotes e dos anciãos: «O primeiro!»

E então Jesus convida-os a extrair as consequências, comentando: «Em verdade vos digo: “Os pecadores manifestos e as prostitutas passarão à vossa frente no Reino de Deus”». Palavras de Jesus duras como pedras, porque constituem o juízo pronunciado sobre aqueles ouvintes. Mas porquê? Não será talvez isto paradoxal? E todavia acontece assim, porque aqueles que publicamente aparecem como pecadores e por todos são tidos como tal, são presas da vergonha e sentem neles o desejo, mais ou menos escutado, de mudar de vida: desejam sair da sua vida de pecado, que os outros desprezam e condenam. Os homens religiosos, ao invés (aqui os sacerdotes e os anciãos, interlocutores de Jesus), que aparecem como observantes mas têm pecados ocultos, dado que todos os veneram e vêem segundo o seu estatuto, não querem absolutamente mudar de vida. Uns estão por isso abertos a um convite à conversão, enquanto os outros pensam que não têm necessidade de qualquer conversão: daqui nasce a sua hipocrisia, a sua rigidez, o seu julgar e espiar os outros, sem nunca se interrogarem sobre si; estão sempre prontos a absolverem-se porque aos olhos das pessoas são justos e até exemplares…
Repito-o, para que seja bem claro. Quem peca às ocultas nunca é impelido à conversão por uma reprovação que lhe venha dos outros, porque continua a ser venerado e estimado por aquilo que da sua pessoa aparece exteriormente: esta é a doença da maior parte das pessoas, entre as quais se destacam precisamente as religiosas e fevotas, que acreditam ser exemplo para os outros. Quem, ao contrário, é um pecador público, encontra-se constantemente ao juízo e à condenação de outros, e de por isso é um induzido a um desejo de mudança. Só animado por tal desejo, só no arrependimento que nasce de um coração esmagado – isto significa etimologicamente “contrito” -, o ser humano pode tornar-se sensível à presença de Deus.
E assim Jesus anota que, quando veio João Batista a pedir a conversão, os pecadores públicos responderam enfaticamente ao convite e converteram-se, enquanto os sacerdotes e as autoridades religiosas, apesar de terem visto isso, nada mudaram do seu comportamento para aderir à sua mensagem. Com esta parábola Jesus interroga por isso cada um de nós, se quisermos escutá-lo. E cada um de nós, quanto mais é reconhecido pela sua profissão de fé, mais deve interrogar-se: digo sim a Deus só por palavras, ou realizo sem clamor e sem ostentação, humildemente, a sua palavra? Em síntese, «no
último dia, no dia do juízo» - como recita uma afirmação tradicionalmente atribuída a Agostinho, que deveríamos ter bem mais presente -, «muitos dos que se pensavam dentro serão encontrados fora, enquanto muitos que pensavam estar fora serão encontrados dentro do Reino dos Céus».



Enzo Bianchi
In "Monastero di Bose", Itália
Trad.: SNPC
Publicado em 29.09.2017

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

a humildade que humaniza





Espírito Santo,
ensina-nos a arte e a sabedoria para moldarmos 
um coração de Homens Novos ao Jeito de Jesus.

A humildade é o principal cinzel 
para moldar um coração de Homem Novo.
Moldado pela humildade, 
o coração torna-se acolhedor e fraterno.

O homem de coração humilde não está sempre a culpar os outros 
das suas insatisfações e fracassos.

É um excelente sinal de humildade 
saber aceitar as próprias limitações 
e procurar realizar-se com os talentos que tem.

Ser humilde é ser verdadeiro em relação a si e aos outros.

É também reconhecer que uma pessoa, para se realizar, 
precisa dos outros, pois a plenitude da pessoa não está em si
mas na reciprocidade da comunhão.

Não é possível moldar um coração 
se a pessoa não aprender a escutar o irmão 
e aceitá-lo assim como ele é.

As pessoas demasiado enredadas em si, 
apenas conseguem escutar-se a si próprias. 
É por esta razão que não conseguem 
sintonizar e comungar com os outros.

A pessoa humilde reconhece o seu pecado 
e sabe que só o amor é capaz de curar as feridas do pecado.

A pessoa que deseja moldar um coração de Homem Novo 
está atenta, 
a fim de não estar sempre a julgar os outros.

A pessoa que está sempre a criticar os outros 
está muitas vezes a projectar os próprios defeitos na pessoa dos irmãos.

Jesus disse que o coração é a fonte 
da qual emergem as boas e as más decisões: 
“É do coração que procedem as más intenções” (Mt 15, 19).

A pessoa que procura viver as relações com os irmãos 
de modo amável e sereno, 
está a aceitar a bênção prometida aos mansos.

Jesus Cristo ensinou que a bênção dos mansos 
consiste em serem possuidores da terra, 
isto é, encontram paz e serenidade em todo o lado (Mt 5, 5).

Na verdade, a amabilidade desmonta a violência e a agressividade.

Ter a gentileza de dar a primazia 
é uma atitude que não passa despercebida 
e ajuda-nos a moldar um coração atento e fraterno.

Saber reconhecer os momentos oportunos para falar 
e as melhores ocasiões para escutar 
é sinal de sabedoria.

É um excelente sinal de amor fraterno 
saber evitar argumentos inúteis 
que só servem para exaltar os ânimos, 
sobretudo se sentirmos que não estão em causa valores fundamentais.

É um excelente sinal de humildade 
saber reconhecer quando o outro tem razão.

Ponhamos a nossa confiança em Deus e no seu amor incondicional por nós. 
Mas não tentemos a Deus 
pretendendo que ele nos substitua ou esteja em nosso lugar.

Não nos esqueçamos de que ao romper com o amor estamos a romper dom Deus, 
pois Deus é amor.

No entanto, mesmo quando rompemos com Deus 
não somos capazes de impedir que ele nos ame, 
pois o seu amor por nós é incondicional.

Isto quer dizer que apesar de não conseguirmos anular o amor de Deus por nós, 
podemos romper a comunhão com ele, 
pois a comunhão assenta na reciprocidade do amor e não no amor unidireccional.

Com efeito, o amor pode ter uma só direcção, 
mas a comunhão só pode acontecer na convergência amorosa.

Façamos do amor a Deus o rochedo sólido para edificarmos a nossa casa, 
sabendo, no entanto, que o amor a Deus passa sempre pelo amor aos irmãos.

Treinemo-nos na arte de facilitar a realização dos outros, 
sabendo que o importante é aceitá-los por eles serem o que são 
e não por fazerem o que gostaríamos que eles fizessem.

Nos nossos diálogos, tentemos comunicar sempre numa linha de verdade e autenticidade.

No trato com os irmãos não estejamos sempre a olhar só para os nossos interesses pessoais, 
mas ajudemo-los com o nosso ter, o nosso ser e também o nosso saber. 

Lembremo-nos de que os outros são um dom de Deus para nós, 
pois são mediações para a nossa realização e felicidade.

Na verdade, ninguém é feliz sozinho. 
É com os outros que nós faremos parte da Família de Deus, 
a qual não assenta nos laços do sangue mas sim nos laços do Espírito Santo.

Para crescermos na capacidade de dialogar e comungar com os outros, 
lembremo-nos de que não somos bons em tudo e de que não somos a medida das outras pessoas.

Sejamos agradecidos, 
sobretudo quando sentirmos que os outros estão a ser atentos e respeitadores 
das nossas diferenças em relação a eles.

A pessoa que tenta controlar e manipular os outros nunca conseguirá ter um coração de homem novo, 
pois está a impedir que o outro possa emergir como pessoa livre, consciente e responsável.

A pessoa que ama o outro, apesar dos seus defeitos está a amá-lo ao jeito de Deus 
e a impedir que ele seja marginalizado.

A pessoa que ama de verdade é capaz de se alegrar com os sucessos dos outros 
como se fossem próprios.

A pessoa humilde entende o chamamento de Jesus 
no sentido de lutar contra as forças negativas do pecado, 
a fim de facilitar o nascimento do Homem Novo.

O homem humilde não alimenta ressentimentos ou planos de vingança. 
Também sabe edificar sobre a gratuidade.

As pessoas que dão coisas para amarrar os outros 
nem são felizes, nem ajudam os demais a emergir como pessoas livres, criativas e felizes.

Espírito Santo,
ajuda-nos a moldar um coração manso e humilde como o de Jesus.




NO PRIMEIRO DIA DA SEMANA
Em Comunhão Convosco,
Calmeiro Matias

sexta-feira, 1 de setembro de 2017