segunda-feira, 29 de maio de 2017

"O século treze é século de cruzadas - raposas contra lobos, muçulmanos contra cristãos. Descendem do mesmo pai, enterrado sob a Bíblia: Abraão. Disputam entre si os despojos dele, com os dentes. A religião é o que une, e nada é mais religioso que o ódio: ele reúne multidões de homens sob o poder duma ideia ou dum nome, ao passo que o amor os liberta, um a um, através da fragilidade de um rosto ou duma voz. 

Francisco de Assis vai à Palestina falar de um Deus que as multidões espantam e que as Igrejas aborrecem. Ele conta aos guerreiros as mesmas coisas que aos pardais. Não fala para convencer: convencer ainda é vencer, e ele não busca mais que o triunfo do canto fraco, sem armadura de ferro nem de língua.

A luz da Palestina acaricia a água dos lagos e o nome dos profetas. Não é mais doce que a de Assis. Não é mais verdadeira do que noutro lugar. Na Palestina, não há senão um túmulo vazio. Não existe Terra Santa. Ou toda a terra é santa, ou nada dela o é. Passa alguns meses nesta luz, depois volta à Europa onde as pessoas precisam dele: são agora milhares a seguir os seus passos, pensando cada um estar na posse da verdade, confundindo o amor com o capricho. (...) 

As pessoas até querem entrar no jogo, mas com a condição de lhe mudar as regras. Para uns, elas são demasiado duras, para outros não o são suficientemente. Ele tem, pois, que recordar esta verdade, que não se compreende se é entendida a meias. Dizer a uns: buscais a felicidade no tumulto do vosso sangue. Por vezes, encontrai-la; outras vezes, perdei-la. Mas a alegria de que vos falo não é nada semelhante. Ela não é nem feliz, nem infeliz. É despreocupação, tanto da felicidade como da infelicidade. Não vos peço que procureis em vós mesmos.Convido-vos a serdes como a terra nua, esquecida de si mesma, que acolhe do mesmo modo a chuva que se abate sobre ela e o sol que a reaquece. E dizer aos outros: procurais a perfeição nos desertos do vosso espírito. Mas não vos peço que sejais perfeitos. Peço-vos que sejais pessoas que amam, o que não é a mesma coisa, que tanto não é a mesma coisa, como é exactamente o contrário. E, depois, dizer a todos brutalmente; no fundo, não sei bem do que falo, quando falo de Deus. Falo sem saber. Como é que vós, que pretendeis entender-me, pretendeis ser mais sábios do que eu, sobre este ponto? Dizeis que me acompanhais e perdeis o meu coração. Dizeis que me amais e causais-me tristeza. Fazeis mais algazarra de que todos os pássaros da floresta - e nada há nos vossos lábios que se pareça com um canto. 

O que canta, arde na sua voz. O que ama, esgota-se no seu amor. O canto é essa queimadura, o amor essa fadiga. Vós esperais que o amor vos cumule. Mas o amor não cumula nada - nem o buraco que tendes na cabeça, nem esse abismo que tendes no coração. O amor é mais privação do que plenitude. O amor é plenitude da carência. Estou de acordo convosco em que é uma coisa incompreensível. Mas aquilo que é impossível de compreender é muito simples de viver."

Christian Bobin, in "Francisco e o Pequenino"

terça-feira, 23 de maio de 2017

Francisco e Clara






"Nada há a dizer dela, a não ser que se completam como os dois pilares do arco-íris, todos os cambiantes de amor passando de um para o outro, todas as cores do sonho. Nada há a dizer dela a não ser o seu nome, e o seu nome diz o que ela é, o que ela dá: Clara, Clareira, clarabóia, clarividente, clarão, esclarecida: todos estes nomes estão no seu nome, todas estas luzes vêm dela, rapariga de dezasseis anos, que os pais querem dar em casamento, rapariga como as que encontramos nas antigas canções francesas, pássaro rebelde ao canto que lhe querem ensinar, pardal que gosta mais de saltitar nos caminhos batidos pela chuva do que refugiar-se debaixo das sombras duma única árvore – mesmo que fosse de alta linhagem. Que queres fazer mais tarde – pergunta-se à criança que não sabe o que quer dizer «mais tarde», que conhece apenas o presente e, no presente, a maravilhosa presença de tudo. […]

Como nas velhas canções, a rapariga vai-se embora, de noite, da casa de seus pais, passa por uma porta secreta, obstruída por uma grande pilha de lenha, retira as achas, uma a uma, com as suas mãos, raspa-se, na noite estrelada, para aquele que cogitou o rapto, o rei dos corações, o príncipe da fuga, Francisco de Assis. 

Amam com o mesmo amor, são feitos para se entenderem, ébrios do mesmo vinho. Ela troca o seu vestido resplandecente por um grosseiro gabão de lã, e ei-los, durante anos, juntos e separados, ele que apanha, com a armadilha da sua voz, as aves do céu, os animais dos campos e os homens das cidades, ela que abate, nas redes de Deus, donzelas cada vez mais numerosas, cada vez mais belas. 

Dois caçadores furtivos. Dois nómadas sobre as propriedades invisíveis de Deus. […] 

Reunidos no colóquio incessante das suas almas, neste êxtase de terem encontrado o interlocutor privilegiado, aquele e aquela que compreende tudo, mesmo os silêncios, mesmo aquilo que não se saberia dizer a si mesmo no silêncio, a irmã, o irmão, sem quem o tempo passado na terra não teria sido senão tempo - nada mais.

A lenda que diz a verdade – não a que está na morte das provas mas a que está no sangue das almas, a lenda diz que, um dia em que Francisco fazia visita a Clara e às suas irmãs no seu convento, deflagrou um incêndio, notado a várias léguas de distância. As pessoas de Assis que acorreram, a fim de o apagar, não viram qualquer chama, fogo nenhum, somente Francisco de Assis e Clara, à volta duma magra refeição, e uma grande luz entre eles, uma claridade impossível de diminuir. 

Ele morrerá antes dela, mas isso não é importante, uma vez que o amor, desde a sua vinda, desde o seu primeiro frémito, abolira os velhos decretos do tempo, suprimira essas distinções do antes e do depois, conservando unicamente o hoje eterno dos vivos, o hoje enamorado do amor.» 

Christian Bobin, in “Francisco e o Pequenino”

O livro: http://livraria.apostoladodaoracao.pt/produto/francisco-e-o-pequenino/