quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Ainda e sempre, os mesmos...


Há uns anos largos, a minha vida, tal como a conhecia e amava, abateu.
Desmoronou sob uma série, improvável, de desastres.
Em conversa com uma amiga, mais velha, mais sábia, tive um desabafo clássico:
- Porquê a mim?
Ela arrumou-me com uma resposta que ainda hoje me perturba:
- Porque não a ti?
Sim, porque razão haveria eu de ser poupada àquela espécie de sofrimento?
Um sofrimento para o qual não tinha contribuído em nada. A catástrofe não anunciada. O Mal, sem moral nem explicação. O tipo de Mal a que todos, desde a aurora dos tempos, estamos inevitavelmente expostos. Dentro e fora de casa.
 
 A devastação provocada pelo tufão Haiyan lembra-me como somos, ainda e sempre, os mesmos. Absolutamente frágeis, distraídos da nossa condição mortal. Condição insuportável – se  pensarmos nela.
 
 Pensemos nela.
“O séc. XVIII usou a palavra “Lisboa” como hoje usamos a palavra “Auschwitz”. (…) O terramoto de 1755, que destruiu a cidade de Lisboa e matou milhares de pessoas, abalou o Iluminismo até à Prússia Oriental” (in“O Mal no Pensamento Moderno”, Susan Neiman).
 
 O horror de Lisboa estarreceu os povos deste lado do mundo, desestabilizou as suas instituições e gerou pensamento e criações literárias a gigantes como Kant, Voltaire, Rousseau e Goethe.
O que fazer com a experiência da catástrofe?
Da Bíblia Hebraica, “O Livro de Job”, poema coletivo fixado no séc. V a.C., é uma iluminação. Não forçosamente no sentido religioso. Antes de mais, como testemunho da perplexidade humana face ao Mal sem razão aparente.

Job é um homem bom, bafejado pela fortuna, crente. Apanhado nas malhas de uma aposta entre Deus e o Diabo, perde tudo – família e bens – de um momento para o outro. Ao longo de 1070 versículos divididos em 42 capítulos, Job interroga-se sobre o porquê de estar a ser tão castigado. O
texto é uma obra-prima da literatura universal. E quem já sofreu na carne a catástrofe, qualquer forma de catástrofe, é irmão siamês de Job.

Finalmente Job, aceita. Aceita que o que teve lhe foi tirado. E bendiz a Deus. O Mal, este tipo de Mal, permanece um mistério. Ponto final. A aceitação do mistério em Job permanece há 2.500 anos, para quem queira bebê-la, uma fonte de sabedoria.
 Paula Moura Pinheiro, Jornalista

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