quinta-feira, 4 de julho de 2013

Emigrar e Peregrinar - Nota do Bispo de Beja

Durante dois dias muitos diocesanos de Beja peregrinaram até Fátima, para aí exprimirem a sua fé e devoção mariana e se congregarem em grande assembleia, formada por alentejanos e muitos outros peregrinos das mais diversas partes do mundo. É o fenómeno de Fátima e de Nossa Senhora. Só ela nos desinstala, torna peregrinos de Deus e enche o nosso coração.
 
 
1. À procura de melhor vida
Devido à crise económica que Portugal e outros países atravessam, muitas pessoas deixam as suas terras e tentam encontrar noutros países aquilo que não encontram perto, trabalho melhor remunerado e condições de vida mais satisfatórias. Nisto reside a principal causa da emigração em massa, de gente nova bem formada e com especialização profissional, mas também de outras pessoas em idade ativa, que não se resignam perante o desemprego ou o subemprego. Muitos milhares de portugueses têm emigrado nos últimos tempos, para todas as partes do mundo e não apenas para os países da comunidade europeia. Ao mesmo tempo, muitos imigrantes, que procuraram em Portugal melhores condições de vida, estão a regressar aos seus países de origem ou a emigrar para outros.
Esta convulsão social afeta profundamente o panorama do nosso país, que envelhece rapidamente e diminui a população ativa, com reflexos na estabilidade familiar, escolar e também eclesial. Por isso a Igreja em Portugal sente a urgência em acompanhar este fluxo de pessoas, como aconteceu no tempo dos descobrimentos e também há 50 anos, quando se fundou a Obra Católica Portuguesa das Migrações. Para estudar a melhor maneira de acompanhar as famílias e os seus emigrantes estão reunidos em Vila Real, durante esta primeira semana de julho, os secretariados diocesanos da mobilidade humana com as estruturas da conferência episcopal encarregadas deste setor e de 11 a 18 de agosto vamos celebrar a 41ª semana nacional de migrações, que este ano tem como lema: peregrinação de fé e de esperança. Terá como ponto alto a peregrinação do migrante ao santuário de Fátima, nos dias 12 e 13 de agosto, presidida pelos bispos da Comissão episcopal e pelo arcebispo do Luxemburgo, onde vive uma numerosa comunidade de língua portuguesa.
Que pode a Igreja fazer pelos emigrantes e pelas famílias afetadas por este fenómeno? Com o olhar clarividente de Jesus Cristo e o seu coração misericordioso e compassivo, temos de também nos fazer ao largo e não ficar a lastimar-nos como o velho do Restelo, contentando-nos com uma pastoral de manutenção do pequeno resto. Não se trata de abandonar os nossos lugares de missão, mas de os alargar para lá onde se encontram as pessoas, dentro do espírito missionário e da colaboração com as Igrejas dos países de acolhimento dos nossos emigrantes. Temos de ser mais pró-ativos, missionários e colaborantes com a Igreja católica, como o foram os nossos antepassados, embora dispusessem de menos meios de conhecimento e de ação. Apesar do seu exíguo presbitério, a diocese de Beja está a colaborar com a Igreja do Reino Unido, em Londres, onde reside uma numerosa comunidade de língua portuguesa, creio que superior ao número de habitantes da área diocesana. É o padre Pedro Rodrigues, há quase 6 anos entre os nossos emigrantes.
 
 
2. Peregrinos de Fátima
Durante dois dias muitos diocesanos de Beja também emigraram das suas terras, ou dito com mais propriedade, peregrinaram até Fátima, para aí exprimirem a sua fé e devoção mariana e se congregarem em grande assembleia, formada por alentejanos e muitos outros peregrinos das mais diversas partes do mundo. Fiquei emocionado e disse-o na homilia do dia 30, ao ver tantos diocesanos juntos e unidos à volta da imagem de Nossa Senhora de Fátima, por ela conduzidos até ao trono e fonte da graça, Jesus Cristo. Nunca em Beja consegui juntar tantos diocesanos e tanto clero com os seus paroquianos. É o fenómeno de Fátima e de Nossa Senhora. Só ela nos desinstala, torna peregrinos de Deus e enche o nosso coração.
Sei que as grandes emoções passam depressa. Vivemos num mundo e num tempo de mudanças céleres e precisamos de parar um pouco, em reflexão e contemplação do mistério de Deus e da nossa vida, para não nos esvaziarmos do cerne da humanidade, que promana de Deus e nos é comunicado pelo seu Espírito na comunhão dos santos.
Nos limites desta breve nota fica o apelo para, de vez em quando, em grupo, nas comunidades paroquiais, nos movimentos ou a sós, reavivarmos esta condição de peregrinos. Estamos a realizar um sínodo, isto é, a tentar unir as forças, a fé e a vida de todos os diocesanos, para descobrirmos a nossa missão como cristãos nos diferentes ambientes e locais do Baixo Alentejo e do Alentejo Litoral.
Talvez ainda não tenhamos descoberto o caminho do nosso peregrinar como Igreja diocesana e os meios e apoios de que dispomos para ir percorrendo as diversas etapas dessa peregrinação. Apetece-me apontar uma das orações de S. Francisco de Assis, o inspirador do atual Papa, como inspiração desse caminho: Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz. Onde há ódio, que eu leve o Amor; Onde há ofensa, que eu leve o Perdão; Onde há discórdia, que eu leve a União; Onde há dúvida, que eu leve a Fé. Onde há erro, que eu leve a Verdade; Onde há desespero, que eu leve a Esperança; Onde há tristeza, que eu leve a Alegria; Onde há trevas, que eu leve a Luz.
Oh Mestre, fazei que eu procure menos ser consolado do que consolar; Ser compreendido do que compreender; Ser amado do que amar. Porque é dando que se recebe; É perdoando que se é perdoado; É morrendo que se ressuscita para a Vida Eterna.


† António Vitalino, bispo de Beja
 

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