segunda-feira, 5 de março de 2012

Quaresma: Convite à mudança


A Quaresma é tempo de preparação para a Páscoa. Nas primeiras comunidades cristãs sentia-se a necessidade de preparar a festa da Páscoa, comemoração da Morte e Ressurreição de Jesus. Logo no primeiro século reservaram dois ou três dias para um tempo de jejum e de penitência, uma espécie de luto pela morte do Senhor e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de purificação para celebrar Jesus Ressuscitado. Foi esta celebração que acabou por chamar-se o Tríduo Pascal. Nos séc. II e III os cristãos sentiram que precisavam de uma preparação mais exigente para celebrarem a Páscoa do Senhor. Começaram por reservar uma semana e mais tarde duas a três semanas de oração e de jejum como forma de preparar o coração para a Ressurreição do Senhor. É já no séc. IV que se começa a celebrar a Quadragésima, isto é, uma série de 40 dias de oração para preparar a Festa Pascal. São 40 dias tendo em atenção três grandes acontecimentos: os 40 anos da travessia do deserto, feita pelo Povo Hebreu que, liberto da escravidão do Egipto, vai ao encontro da Terra Prometida; os 40 dias que Elias levou para, alimentado por Deus, chegar ao monte Horeb e ali adorar o Senhor; e sobretudo os 40 dias que Jesus passou no deserto da Judeia em jejum e penitência para se preparar para o anúncio do Reino. A Igreja escolheu então que a preparação para a Páscoa devia conter 40 dias também. Foi o Concílio de Niceia, por volta do ano 325, que consagrou definitivamente a Quaresma como tempo de preparação para a celebração da Morte e Ressurreição de Jesus. A Quaresma começa com um desafio: “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 15).

• Arrependei-vos – é um convite à mudança de vida com o reconhecimento sincero de tudo o que não tem estado bem e que é necessário superar.
• Acreditai no Evangelho – é a afirmação de uma referência para a mudança de vida. Só o Evangelho tem os valores essenciais para descobrir os caminhos novos que o cristão tem sempre o dever de percorrer, os caminhos da verdade, da justiça, do bem e do amor.
• A coerência de vida – é uma exigência para vencer toda a forma de hipocrisia nas três propostas que aparecem nas primeiras horas da Quaresma. A esmola, a oração e o jejum, práticas quaresmais, não podem ser feitas para serem vistas pelos homens; são purificadoras da inteligência e da vontade e tornam possível a conversão necessária.

A Quaresma é, para o cristão, em cada ano, um tempo privilegiado de renovação interior, um “grande retiro”, em que se avalia o ser cristão e se pede a ressurreição pessoal necessária. Como Cristo morreu e ressuscitou, também cada cristão deve morrer para imensas coisas e ressuscitar para a vida nova que lhe é proposta pelo Evangelho.

A Quaresma na nossa comunidade constitui um tempo de renovação pessoal e comunitária, no aprofundamento espiritual, na linha da fé e numa intervenção mais eficaz na vida de caridade. Seremos capazes de aproveitar este tempo santo como oportunidade de um compromisso cristão mais assumido?

• A renovação da fé – há muitas propostas de renovação espiritual: orientação para a oração pessoal, oportunidade de debates no campo dos valores do Evangelho, aprofundamento da fé em catequeses organizadas, valorização dos tempos fortes de reflexão e silêncio que nos sejam propostos, tudo isto a par de inúmeras celebrações comunitárias.
• A afirmação da caridade – a atenção aos outros sobretudo os mais pobres, ou os mais isolados, a partilha de bens, especialmente perante a pobreza envergonhada. A ajuda a quem precisa de apoios para superar as dificuldades e muitos outros gestos de caridade com o repartir do tempo, das opiniões, dos afectos e até da própria fé. Tudo são gestos de amor para quem precisa de se sentir amado.
• O testemunho de esperança – no mundo de hoje, cruzam-se nas nossas vidas inúmeras inquietações. São as dificuldades económicas, os problemas de emprego, as perdas de crédito, como são também as doenças inesperadas, a morte de um familiar, a incerteza perante o futuro. O cristão tem o dever de testemunhar a esperança, ficando sereno na adversidade. Por muito difíceis que sejam os tempos, Deus está sempre presente para além do tempo. É preciso confiar.

É neste contexto das virtudes teologais que é possível celebrar na comunidade o caminho quaresmal. Se o conseguirmos, a Páscoa será mesmo de Ressurreição

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