segunda-feira, 5 de março de 2012

Desfigurados e Transfigurados
Reflexão em tempo de Quaresma

Desfiguradas são algumas pessoas, presas às passageiras impressões dos sentidos, incapazes de perscrutar a grandeza interior em si mesmos, presente ainda que faltem lindos traços de beleza, imarcescível ainda que murchem as belas rosas da face. A desfiguração de quem esgota a sua capacidade de amor nas aparências e menospreza o mistério indizível de um coração humano. Desfigurada gente que ignora quanto o caminho da cruz pode purificá-la, dando-lhe têmpera e firmeza, sem diminuí-la, antes enriquecendo-a, aperfeiçoando-a, aprofundando-lhe o optimismo que nas adversidades se purifica de exageros fantásticos e nocivos. Em contacto com as provações o optimismo natural clarifica-se, transfigura-se, sublima-se mas não perde a sua essência.

Transfigurados são os homens e as mulheres que procuram intimamente, esquecidos de si mesmos, que se inclinam com leve tremura de esperança sobre o outro ser humano e murmuram respeitosamente, baixinho, quase em oração: «Que será desta pessoa? Que rumos seguirá? Que espécie de humanidade dormita neste coração!» São os que amam com sinceridade, amor eficaz, sem portagem, sem precipícios, sem muralha, permitindo o acesso a toda a hora, em todo o lugar, em toda a circunstância, reflexo do amor de Deus, no amor de pai e no amor de mãe e no amor de irmão e no amor de amigo e no amor de companheiro!

A transfiguração de quem desce humilde e generoso para elevar melhor e mais depressa os outros no seu tempo e no seu lugar, à semelhança do baixar de Cristo, humilde e solidário, penetrando no coração de todos, sem excepção, mas respeitando-lhes a liberdade e os direitos. A transfiguração de quem perdoa por caridade, por convicção, por coragem, pois quem perdoa por fraqueza, constrangido pelas circunstâncias e pelo medo, esse está desfigurado.
Luís
Cfr. Evangelho segundo S. Marcos (9,2-10) - Ler aqui

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