quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Testemunho de um ateu convicto acerca de D. Manuel Falcão

Sou ateu até à medula dos ossos – saí assim. Estou por isso em condições privilegiadas para dizer que hoje morreu alguém que mais se aproximou da ideia que faço de um santo: D. Manuel Falcão, Bispo Emérito de Beja.
Nunca me foi dado ver pessoa tão desprendida dos seus cuidados materiais. Embora pertencesse a uma família abastada, tinha que ser a irmã a mudar-lhe em segredo o guarda-roupa quando os fatos já se encontravam quase no fio. O automóvel de serviço, era ele, sempre que possível, quem o consertava em caso de avaria, dando uso à sua formação de engenheiro. O dinheiro de que dispunha, dissipava-o em pequenos auxílios discretos ou numa obra monumental, lenta e prudente: o levantamento, restauração e conservação do património histórico e artístico da diocese de Beja. Isto dito assim parece coisa institucional e maçadora, mas não era, porque estando entregue a José António Falcão (apesar do nome não tem qualquer laço familiar) tornou-se “apenas” um case study.
Foi em Janeiro de 1975 que Manuel Falcão recebeu o bispado de Beja. É difícil conceber cargo mais complicado, dada a hora e o local. Como ele o desempenhou, se quiserem saber, falem com pessoas de Beja, sobretudo comunistas, que elas vos dirão.
Manuel Falcão não era um homem efusivo e prazenteiro, mas era de trato cordial e sobretudo ponderado. Ou seja, procurava sempre salvar o pecador do seu pecado, em vez de brandir as penas do inferno, por maior que fosse o erro. Sei do que falo e com ele aprendi que o anti-clericalismo é insensato. Percebi também que ser ateu em paz e descanso, sem correr riscos de ver a cabeça separada dos ombros ou acabar com o corpo em chamas, é uma prerrogativa das sociedades cristãs contemporâneas. Bem sei que isto contrasta com alguns preconceitos dominantes, mas é a vida…
Pelo Natal, Manuel Falcão entregava a cada um dos 79 sobrinhos-netos um envelope com €20. Dava-lhes também a responsabilidade de entregarem esse dinheiro à instituição de caridade ou beneficência que entendessem.


Este pequeno texto demonstra bem a grandeza deste homem...
... É morrendo que se nasce para a Vida Eterna ...

Sem comentários: