quarta-feira, 12 de julho de 2017

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Espírito Santo e o Dom da Alegria







São Paulo diz que o Reino de Deus, isto é, a meta para a qual estamos a caminhar, tem como um dos pilares fundamentais a alegria: O Reino de Deus não é uma questão de comer ou beber, mas sim de justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14, 17).

Ao falar dos frutos do Espírito Santo, a Carta aos Gálatas diz o seguinte: Por seu lado, os frutos do Espírito Santo são: amor, alegria, paz” (Gal 5, 22).

Falando com os discípulos durante a Última Ceia, Jesus disse o seguinte: Revelei-vos todas estas coisas, a fim de que a minha alegria habite em vós e, deste modo, a vossa alegria seja perfeita e total” (Jo 15, 11).

O evangelho de São João diz que no decorrer da Ceia Pascal, os discípulos começam a entristecer-se, pois apercebem-se de que Jesus estava a despedir-se. Jesus aproveitou a situação para lhes garantir que, após a Páscoa, a sua alegria seria plena e duradoira: Agora estais abatidos, mas ver-vos-ei de novo e haveis de vos alegrar e já ninguém poderá tirar-vos a vossa alegria” (Jo 16, 22).

Na sua primeira aparição como ressuscitado, os discípulos ficaram cheios de alegria, tal como o Senhor lhes tinha garantido. Eis as palavras de São João: “Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco!” Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito e os discípulos encheram-se de alegria por verem que era o Senhor” (Jo 20, 19-20).

Ao terminar a Ceia, Jesus faz uma oração ao Pai, pedindo-lhe para que os discípulos recebam a plenitude da alegria da fé, a qual vem do Espírito Santo. Eis as suas palavras: “Pai Santo, agora vou para ti. Mas antes de partir queria pedir-te o seguinte: “Que eles tenham em si a plenitude da minha alegria” (Jo 17, 13).

O evangelho de São Lucas diz que Jesus exulta de alegria no Espírito Santo, por ver que as pessoas simples e pobres acolhem a Palavra de Deus: Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: “Bendigo-te ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelastes aos pequeninos” (Lc 10, 21).

O Espírito Santo, diz São Paulo, é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5). 

É Pelo Espírito Santo que a bondade divina transborda para a Humanidade. Graças a Cristo ressuscitado já fazemos parte da Comunhão Universal do Reino de Deus cujo coração é a Santíssima Trindade. As pessoas humanas são assumidas nessa comunhão familiar de Deus e, portanto, divinizadas.

O Espírito santo é a dinâmica do amor de Deus a actuar nos nossos corações. Podíamos dizer que é o sangue divino a circular nas veias do nosso ser interior. Por outras palavras, o Espírito Santo é o Sangue da Nova e Eterna Aliança a comunicar-nos a vida divina.

Jesus disse que o Espírito Santo é a Água Viva que faz emergir uma nascente de vida eterna no íntimo do nosso coração (Jo 7, 37-39; cf. Jo 4, 14). É a Carne e o Sangue de Cristo ressuscitado a alimentar em nós a vida dos Filhos de Deus (J0 6, 62-63).

O Espírito Santo é o Sangue e a Água que jorrou do peito de Cristo no momento em que morreu e ressuscitou sobre a cruz (Jo 19, 33-34). O Espírito Santo é o sopro que saiu da boca de Jesus ressuscitado na sua primeira aparição aos discípulos: Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados ficarão perdoados, mas àqueles a quem os retiverdes ficarão retidos” (Jo 20, 22-23).

O nosso Deus sonha projectos de amor e concretiza aquilo que sonha. Alegremo-nos, pois fazemos parte do plano de amor de um Deus que nos ama incondicionalmente e por isso nos comunicou o dom do Espírito Santo que, no nosso coração, é uma fonte permanente de alegria e fortaleza.

Ele é também o amor maternal de Deus que realiza a plena reconciliação do Homem com Deus, fazendo de nós uma Nova Criação, como diz São Paulo: Se alguém está em Cristo é uma Nova Criação. Passou o que era velho. Tudo isto nos vem de Deus que nos reconciliou consigo em Cristo, não levando mais em conta os pecados dos homens” (2 Cor 5, 17-19).

Graças à acção maternal do Espírito Santo somos incorporados na Família de Deus como filhos e herdeiros de Deus Pai e irmãos e co-herdeiros com o Filho de Deus (Rm 8, 14-17).

O Livro do Génesis diz que a génese histórica do Homem em construção foi iniciada pelo hálito da vida de Deus, isto é, o Espírito Santo, no momento do sopro primordial (Gn 2, 7).

Ao comunicar-nos o dom do Espírito Santo, Jesus criou as condições perfeitas para podermos atingir a alegria plena. Eis as palavras de Jesus: “Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que eu vos disse” (Jo 14, 26).

Ao ressuscitar, Jesus comunicou-nos a possibilidade de comunicarmos de modo directo com o Espírito Santo, a fim de participarmos da interacção que existe entre o Pai e o Filho. Eis as palavras de São Paulo: “Todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão, mas um Espírito que faz de vós filhos adoptivos.
É por este Espírito que clamamos “Abba”, Pai Querido” (Rm 8, 14-15; cf. Ga 4, 4-7).

Os seres humanos não entram isoladamente na comunhão familiar de Deus. Na verdade, As pessoas são incorporadas nesta comunhão familiar, graças ao facto de formarem uma união orgânica com Cristo. A Carta aos Gálatas diz que todos nós somos um em Cristo (Gal 3, 29). Por isso ele pôde afirmar: “Já não sou eu que vivo mas Cristo que vive em mim” (Gal 2, 10).

O Homem Novo é uma Nova Humanidade onde deixa de haver razões para dividir os seres humanos por razões de raça, cultura, de classe social ou pela sua condição sexual: Já não há grego nem judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro, cita, escravo ou homem livre, mas apenas Cristo que é tudo em todos e está em todos nós” (Col 3, 9-11).

É nesta comunhão orgânica que os seres humanos encontram a sua plena alegria de pessoas totalmente realizadas e felizes.







NO PRIMEIRO DIA DA SEMANA
Em Comunhão Convosco, 
Calmeiro Matias

sexta-feira, 23 de junho de 2017






«Os livros de hoje são de papel. Os livros de outrora eram de pele. A Bíblia é o único livro de ar - um dilúvio de tinta e de vento. Um livro insensato, desvairado no seu sentido, tão perdido nas suas páginas como o vento nos parques dos supermercados, nos cabelos das mulheres, nos olhos das crianças. Um livro impossível de ter entre duas mãos tranquilas, para uma leitura serena, longínqua: pôr-se-ia imediatamente em voo, espalharia a areia das frases entre os dedos. (...)

É uma pergunta que não encontra resposta. (...) É uma pergunta infantil, colocada pela alma que se agita num punhado de céu azul, sob um silêncio demasiado grande para ela: de onde venho, eu que não existi sempre? Onde é que eu estava, antes de ter nascido? A nossa época tem a resposta mais breve que se pode dar: vens da cópula entre o teu pai e a tua mãe. És o fruto de alguns suspiros e de um pouco de prazer. Aliás, estes suspiros e este prazer não são indispensáveis. Hoje em dia, não temos necessidade senão de uma proveta. A resposta de data mais recente é esta: vens de um espermatozóide e de um óvulo. Não há nada a buscar do lado de cá. Nada de cá, e nada do lado de lá. (...)

No século treze, vinha-se de Deus e a Ele se regressava. A resposta integral estava na Bíblia, unificava-se com o Livro. Uma resposta de milhares de páginas. Ela não estava tanto na Bíblia, quanto no coração de quem lia a Bíblia, a fim de nela encontrar a resposta. E não podia ler convenientemente sem fazer entrar a sua leitura em cada um dos seus dias. A resposta não era lida, mas sim provada - provada na carne, provada mental e espiritualmente. Não era uma resposta de professor. Os professores são pessoas que ensinam aos outros as palavras que eles próprios encontraram nos livros. Mas não se aprendem palavras num livro de ar. Recebe-se, de tempos a tempos, a sua frescura. Estremecemos ao sopro de uma palavra: amava-te muito antes de nasceres. Amar-te-ei, muito para lá do fim dos tempos. Amo-te em todas as eternidades. (...)

E antes de estar na Bíblia, onde estava esta palavra, de onde é que ela vinha? Pairava sobre o vazio das terras e sobre o vazio dos corações, rodopiava com o vento dos desertos. Ela era primeira. Ela sempre existira. A palavra de amor é anterior a tudo, até mesmo ao amor. (...)

Amava-te. Amo-te. Amar-te-ei. Não basta a carne para nascer. Também é necessária esta palavra. Ela vem de longe. Vem do azul longínquo dos ceús, penetra no ser vivo, escorre sob a carne dos vivos, como uma corrente subterrânea de amor puro. Para a conhecer, não é necessário conhecer a Bíblia. Não é preciso crer em Deus para ser vivificado pelo seu sopro. Esta palavra impregna cada página da Bíblia, mas também impregna as folhas das árvores, o pêlo dos animais e cada grão de pó que voa no ar. O ponto mais fundo da matéria, o seu último núcleo, o seu limite extremo, não é a matéria, mas sim esta palavra.

Amo-te. Amo-te com um amor eterno, eternamente voltado para ti - pó, animal, homem. (...) Muito antes de teres nascido. Muito depois do fim dos tempos. Amo-te em todas as eternidades. É de lá que vem Francisco de Assis. Vem de lá e para lá volta, como se regressa ao leito profundo, entre os braços duma amante.»

Christian Bobin, in "Francisco e o Pequenino"