sexta-feira, 23 de junho de 2017






«Os livros de hoje são de papel. Os livros de outrora eram de pele. A Bíblia é o único livro de ar - um dilúvio de tinta e de vento. Um livro insensato, desvairado no seu sentido, tão perdido nas suas páginas como o vento nos parques dos supermercados, nos cabelos das mulheres, nos olhos das crianças. Um livro impossível de ter entre duas mãos tranquilas, para uma leitura serena, longínqua: pôr-se-ia imediatamente em voo, espalharia a areia das frases entre os dedos. (...)

É uma pergunta que não encontra resposta. (...) É uma pergunta infantil, colocada pela alma que se agita num punhado de céu azul, sob um silêncio demasiado grande para ela: de onde venho, eu que não existi sempre? Onde é que eu estava, antes de ter nascido? A nossa época tem a resposta mais breve que se pode dar: vens da cópula entre o teu pai e a tua mãe. És o fruto de alguns suspiros e de um pouco de prazer. Aliás, estes suspiros e este prazer não são indispensáveis. Hoje em dia, não temos necessidade senão de uma proveta. A resposta de data mais recente é esta: vens de um espermatozóide e de um óvulo. Não há nada a buscar do lado de cá. Nada de cá, e nada do lado de lá. (...)

No século treze, vinha-se de Deus e a Ele se regressava. A resposta integral estava na Bíblia, unificava-se com o Livro. Uma resposta de milhares de páginas. Ela não estava tanto na Bíblia, quanto no coração de quem lia a Bíblia, a fim de nela encontrar a resposta. E não podia ler convenientemente sem fazer entrar a sua leitura em cada um dos seus dias. A resposta não era lida, mas sim provada - provada na carne, provada mental e espiritualmente. Não era uma resposta de professor. Os professores são pessoas que ensinam aos outros as palavras que eles próprios encontraram nos livros. Mas não se aprendem palavras num livro de ar. Recebe-se, de tempos a tempos, a sua frescura. Estremecemos ao sopro de uma palavra: amava-te muito antes de nasceres. Amar-te-ei, muito para lá do fim dos tempos. Amo-te em todas as eternidades. (...)

E antes de estar na Bíblia, onde estava esta palavra, de onde é que ela vinha? Pairava sobre o vazio das terras e sobre o vazio dos corações, rodopiava com o vento dos desertos. Ela era primeira. Ela sempre existira. A palavra de amor é anterior a tudo, até mesmo ao amor. (...)

Amava-te. Amo-te. Amar-te-ei. Não basta a carne para nascer. Também é necessária esta palavra. Ela vem de longe. Vem do azul longínquo dos ceús, penetra no ser vivo, escorre sob a carne dos vivos, como uma corrente subterrânea de amor puro. Para a conhecer, não é necessário conhecer a Bíblia. Não é preciso crer em Deus para ser vivificado pelo seu sopro. Esta palavra impregna cada página da Bíblia, mas também impregna as folhas das árvores, o pêlo dos animais e cada grão de pó que voa no ar. O ponto mais fundo da matéria, o seu último núcleo, o seu limite extremo, não é a matéria, mas sim esta palavra.

Amo-te. Amo-te com um amor eterno, eternamente voltado para ti - pó, animal, homem. (...) Muito antes de teres nascido. Muito depois do fim dos tempos. Amo-te em todas as eternidades. É de lá que vem Francisco de Assis. Vem de lá e para lá volta, como se regressa ao leito profundo, entre os braços duma amante.»

Christian Bobin, in "Francisco e o Pequenino"

sábado, 17 de junho de 2017

O Espírito do Amor

Chama e Luz

A Chama e a Luz

Com o Cristo Rei a abraçar Lisboa, com a paisagem deslumbrante da noite e da luz das estrelas, sob os pés do Redentor, reunimo-nos em Almada, no Pavilhão do Rosário, neste sábado 03 de Junho de 2017, para assistir a mais uma Noite de Adoração ao Santíssimo Sacramento da iniciativa dos Irmãozinhos de S. Francisco de Assis de Beja.
Irmãozinhos que nos continuam a surpreender pela bondade, alegria, partilha e pela sua dedicação aos Homens e ao Senhor Jesus.
O Pavilhão é enorme, com um altar lindo e simples enfeitado de gladíolos brancos e com um crucifixo diferente e bonito. Mas a enormidade rapidamente ficou pequena perante a multidão que se foi juntando. Mais de 800 pessoas responderam ao chamamento do Senhor para festejar o Pentecostes.
E foi de festa esta Noite de Adoração.
Sob o tema “O Espírito do Amor”, vivemos momentos de oração únicos e sempre emocionantes, que nos levam, como dizia o Ir. Domingos, a querer mergulhar na força do Espírito de Deus.
A chama e a luz que transportámos até ao altar, fizeram parte destes momentos maravilhosos, como se a luz nos inundasse e nos transmitisse o calor, o abraço, a generosidade, o amor de Jesus, e nos enchesse o coração tal como aos Apóstolos depois da descida do Espírito Santo.
Peço-Te Senhor, que saibamos deixar-nos inundar do Teu Espírito. Que possamos merecer essa luz. Que aprendamos a olhar para Ti, e que saibamos deixar-nos olhar por Ti, meu Jesus. Senhor, enche-nos de Ti.
O meu coração encheu-se de alegria quando passaste por nós e nos abençoaste. Preciso de Ti na minha vida, Senhor.
Que o Espírito Santo me ilumine, Senhor. Quero estar bem junto de Ti, Te reconhecer e encher-me do Teu poder.
Obrigada meu Deus por todos os momentos de Adoração vividos com os Irmãozinhos, e com todos aqueles que se deixam inundar pela Tua luz.
Que estes queridos Irmãozinhos continuem sempre a fazer parte da minha vida, a ensinar-me a encontrar-Te, a amar-Te, e a ser uma pessoa melhor. Bem hajam.
Queluz, 05 de Junho de 2017

Ju

sexta-feira, 2 de junho de 2017

segunda-feira, 29 de maio de 2017

"O século treze é século de cruzadas - raposas contra lobos, muçulmanos contra cristãos. Descendem do mesmo pai, enterrado sob a Bíblia: Abraão. Disputam entre si os despojos dele, com os dentes. A religião é o que une, e nada é mais religioso que o ódio: ele reúne multidões de homens sob o poder duma ideia ou dum nome, ao passo que o amor os liberta, um a um, através da fragilidade de um rosto ou duma voz. 

Francisco de Assis vai à Palestina falar de um Deus que as multidões espantam e que as Igrejas aborrecem. Ele conta aos guerreiros as mesmas coisas que aos pardais. Não fala para convencer: convencer ainda é vencer, e ele não busca mais que o triunfo do canto fraco, sem armadura de ferro nem de língua.

A luz da Palestina acaricia a água dos lagos e o nome dos profetas. Não é mais doce que a de Assis. Não é mais verdadeira do que noutro lugar. Na Palestina, não há senão um túmulo vazio. Não existe Terra Santa. Ou toda a terra é santa, ou nada dela o é. Passa alguns meses nesta luz, depois volta à Europa onde as pessoas precisam dele: são agora milhares a seguir os seus passos, pensando cada um estar na posse da verdade, confundindo o amor com o capricho. (...) 

As pessoas até querem entrar no jogo, mas com a condição de lhe mudar as regras. Para uns, elas são demasiado duras, para outros não o são suficientemente. Ele tem, pois, que recordar esta verdade, que não se compreende se é entendida a meias. Dizer a uns: buscais a felicidade no tumulto do vosso sangue. Por vezes, encontrai-la; outras vezes, perdei-la. Mas a alegria de que vos falo não é nada semelhante. Ela não é nem feliz, nem infeliz. É despreocupação, tanto da felicidade como da infelicidade. Não vos peço que procureis em vós mesmos.Convido-vos a serdes como a terra nua, esquecida de si mesma, que acolhe do mesmo modo a chuva que se abate sobre ela e o sol que a reaquece. E dizer aos outros: procurais a perfeição nos desertos do vosso espírito. Mas não vos peço que sejais perfeitos. Peço-vos que sejais pessoas que amam, o que não é a mesma coisa, que tanto não é a mesma coisa, como é exactamente o contrário. E, depois, dizer a todos brutalmente; no fundo, não sei bem do que falo, quando falo de Deus. Falo sem saber. Como é que vós, que pretendeis entender-me, pretendeis ser mais sábios do que eu, sobre este ponto? Dizeis que me acompanhais e perdeis o meu coração. Dizeis que me amais e causais-me tristeza. Fazeis mais algazarra de que todos os pássaros da floresta - e nada há nos vossos lábios que se pareça com um canto. 

O que canta, arde na sua voz. O que ama, esgota-se no seu amor. O canto é essa queimadura, o amor essa fadiga. Vós esperais que o amor vos cumule. Mas o amor não cumula nada - nem o buraco que tendes na cabeça, nem esse abismo que tendes no coração. O amor é mais privação do que plenitude. O amor é plenitude da carência. Estou de acordo convosco em que é uma coisa incompreensível. Mas aquilo que é impossível de compreender é muito simples de viver."

Christian Bobin, in "Francisco e o Pequenino"